Quando o que está em jogo é o interesse público paulistanos pelo lazer e pelo esporte, é interessante lançar mão de vários caminhos e de várias ferramentas para atingir bons resultados.
No entanto, qualquer passo pode incorrer em equívoco caso se deixe de refletir a respeito da atual situação dos serviços públicos nessas áreas na cidade de São Paulo.
Muitos aspectos estão envolvidos na questão e poderíamos começar por considerar qual é a importância que a população e o poder público atribuem a temas como estilo de vida ativo, bem-estar, qualidade de vida, saúde, felicidade, meio ambiente, sustentabilidade da vida no planeta.
Quando comparamos como a sociedade brasileira encarava tais temas há vinte anos com o que presenciamos na atualidade nos alegramos ao constatar que muito conhecimento a respeito do assunto já se produziu, muito já foi disseminado entre as pessoas e faz parte do imaginário social de diversas camadas sociais. Pode-se dizer que já faz parte do senso comum o quanto a prática de exercícios físicos, o quanto a alegria e o relaxamento proporcionados pelos momentos de lazer, o quanto a sensação de fazer parte de um grupo esportivo com objetivos definidos, beneficiam a vida e fazem com que as pessoas se sintam bem.
Quando há trinta e três anos escolhi ser profissional de Educação Física nem imaginava que entrava num campo de atuação que passaria por tantas mudanças e expansão. Por meio do exercício físico e do esporte pessoas são educadas, se tornam cidadãos disciplinados, persistentes, respeitadores e úteis à sociedade; melhoram a força, resistência, velocidade, flexibilidade, agilidade auxiliando o praticante a trabalhar com mais eficiência ou mesmo se tornarem astros e estrelas de espetáculos que contagiam grandes massas de pessoas, atraem turistas e público pagante incentivando o desenvolvimento econômico; diminuem a gordura corporal, melhoram a eficiência cardíaca, baixam índices glicêmicos, o que resulta em menores índices de doença e diminuem os gastos com o sistema de saúde; melhoram a atenção, a concentração, a comunicação e o relacionamento interpessoal contribuindo para que o rendimento na escola e fora da escola seja facilitado; minimizam o estresse, a ansiedade, a depressão; melhoram a segurança nos bairros porque oferecem ao jovem uma alternativa para as drogas e a violência comuns nos meios urbanos; ou seja, o exercício físico e o esporte vêm, ao longo do tempo, realizando inúmeros papéis, em contextos e com finalidades diversas e permite afirmar que, hoje, podem ser vistos como a grande panacéia da humanidade.
O lazer, por sua vez, tradicionalmente visto como luxo de uma parcela privilegiada da sociedade, acessível apenas àqueles que podem pagar pelas vivências agradáveis que proporciona, também vem passando por mudanças na forma como é compreendido chegando-se à conclusão que, tanto o esporte, quanto o lazer constituem direitos de todos os cidadãos. E se são direitos, o Estado tem o dever de proporcionar condições para que sejam atendidos.
Trata-se, então, de pensar em como o poder público, nas esferas municipal, estadual e federal, vêm atendendo a esses direitos. Será que todas as necessidades e desejos da população no que se refere a esporte e lazer já estão suficientemente atendidos? Será que todos os segmentos sociais têm sido ouvidos ou têm tido, pelo menos, oportunidade de se manifestarem? Será que é suficiente enriquecer a programação pública com mais eventos, com mais programas? Será que é possível distinguir entre programas e eventos bem organizados e que proporcionam um bom serviço público, daqueles que não o são? Será que o dinheiro público está sendo utilizado da melhor maneira possível, sem desperdício? Será que as formas tradicionais de gestão pública relativas aos serviços de esporte e lazer são as mais eficazes, as mais sustentáveis e, portanto, a que melhor atendem ao interesse público?
Pensando nessas questões talvez seja a hora de afirmar: Não basta oferecer, tem que avaliar.
Em outras palavras, não basta planejar, reunir os recursos necessários e concretizar as ações de esporte e lazer previstas em eventos e programas, é preciso ir além. E por quê?
Porque, cada vez mais, se desenvolve a consciência de que serviço público não é para o pobre, encarado como um grupo de pessoas pouco exigentes e que, por isso, pode ser de pouca qualidade. Serviço público é para o público, é um campo onde reinam os princípios da democracia, é onde os interesses se encontram com respeito compartilhado para que não se perpetue no poder apenas o atendimento de um determinado grupo, mas que propicie a alternância de interesses de grupos diversos, estando, ao mesmo tempo, sempre aberto à renovação, sempre sensível às diversas camadas sociais representadas, sempre preocupado com o aprimoramento do que é oferecido às pessoas.
É preciso colocar em pauta a preocupação constante com a melhoria da efetividade do serviço público. Ir além do que tradicionalmente ocorre na gestão do serviço público na área do esporte e do lazer implica em adotar modelos de gestão por resultados no qual, desde que se inicia o planejamento, não se deixe de lado a identificação ou a construção de indicadores para monitoramento da eficácia e da eficiência que propiciarão, em seguida, a reflexão sobre o processo, sua avaliação, e tomadas de decisão que conduzam os processos para melhor efetividade possível.
Na área do esporte e do lazer, e porque não dizer da administração pública em diversos setores, a gestão por resultados ainda não é suficientemente disseminada. Ainda é preciso divulgar a ideia e suas práticas conseqüentes, é preciso divulgar a ideia de que os princípios da transparência, da avaliação dos resultados alcançados, exemplificam como o interesse público é respeitado pelo gestor público.
Atentar para o interesse público implica na necessidade de ampliar o conhecimento sobre os serviços oferecidos, por quem é oferecido, quais interesses atende, se atende de maneira tida como satisfatória e, ainda, implica na necessidade de contar com a participação permanente da sociedade por meio de fóruns, assembléias, outros meios de manifestar sua opinião inclusive utilizando as ferramentas disponibilizadas pela Internet. Nesta linha de trabalho, uma boa prática é a instalação de observatórios do esporte e do lazer nos municípios brasileiros contando com a presença de acadêmicos, de profissionais e da população em geral proporcionando o diagnóstico, a identificação de tendências e de lacunas na oferta de esporte e lazer.
É preciso haver espaço para isso, espaço para pesquisa, para discussão, para reflexão, enfim, um espaço para o conhecimento sobre o esporte e o lazer que permita à gestão pública melhorar sua atuação e melhor atender ao interesse público.
A cidade de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação, inaugurará um espaço dessa natureza e com estas finalidades. Será um local em que servidores públicos e demais interessados em esporte e lazer poderão encontrar-se, debater, aprimorar seus conhecimentos e ainda produzir novos.
Esperemos que, em breve, tal experiência inovadora comece a surtir resultados que possam ser multiplicados pelo território brasileiro e, sem falsa modéstia, também por outros países para que programas e eventos de esporte e lazer sejam melhor qualificados e realizem todas suas potencialidades no sentido de promover o bem-estar da população.
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